sábado, 1 de janeiro de 2011

MINHA DOCE CECÍLIA

            A cama rangia como quase a gritar. Aqueles lençóis já estavam extasiados com tantos movimentos pélvicos. Antunes e sua amante pareciam dois animais afoitos. Qual o fim do mundo fosse dali a pouco, o orgasmo urgia violentamente. Qual o fim do mundo... Qual o fim da vida... A morte...
Sexo é vida!...
Um motel vagabundo era aquele. Mas os motéis, todos eles, são sempre templos. Altares em que se misturam, de modo ritualista, inúmeras seivas.
            Subitamente, a porta do quarto foi aberta. Antunes e sua amante – nus, miseravelmente nus – encolhem-se num canto da cama... Antunes arregala os olhos! À sua frente, a visão do inferno!.... À sua frente, estatelada à porta, ladeada por alguém... à sua frente, sua amada esposa!...
Cecília, acompanhada de Marina – uma amiga de infância –, Cecília lançou um olhar gelado sobre Antunes... Apenas sobre Antunes... E não usou mais do que quatro palavras:
- Espero você em casa.
E Cecília, seguida por uma perplexa Marina... Cecília se foi...

            Mas o nosso conto, de fato, começa horas depois deste lamentável ocorrido, quando Antunes – após quase esvaziar o tanque do carro, de tanto rodar, à toa, pela cidade – finalmente chega em casa.
            O homem estava um trapo, um lixo. Roupa desgrenhada, cabelo desalinhado, um suor frio a varrer-lhe o corpo. Puro desespero.
           Foi entrando, hesitante, em seu adorável lar. A sala, à meia luz... O corredor que levava ao quarto...
O quarto!...
Ela devia estar lá, intuiu. Devia estar arrasada sobre a cama.
            Baixou a cabeça e chorou. Sua amada Cecília não merecia o que fizera. Dentre todas as mulheres boas do mundo, ela era a mais doce e mais frágil e mais companheira e mais...
            Não!... Ainda não seguiria para o quarto. Precisava de uma dose extra de coragem. Decidiu encaminhar-se à cozinha. Lá, bebericaria um cachacinha e só depois... Ah, só depois...
            Acontece que, ao chegar à cozinha, Antunes quase desmaiou. Sobre a mesa do recinto havia um farto jantar: costeletas – seu prato predileto –, arroz, feijão, pudim de leite. E o mais inesperado: em pé, junto a geladeira, avental atado ao corpo, Cecília com um doce riso nos lábios.
- Você demorou, querido! – O tom de voz mais cândido do mundo – Já estava ficando preocupada!
            O queixo de Antunes, por um triz, não lhe passou do umbigo.
- Cecília, eu... Bem, quero que você... Eu... – Gaguejar! Era preciso gaguejar: não existia melhor remédio para auxiliar as idéias a se articularem – Quero que entenda que... Eu...
            Cecília, porém, sempre ridente, dirigiu-se a Antunes, deu-lhe um afetuoso beijo no rosto e, segurando-lhe os ombros, conduziu-o à mesa.
- Espero que o jantar lhe agrade.
            Antunes sentou-se e examinou aquele maravilhoso cardápio. Um banquete para um adúltero?! Então, a idéia lhe ocorreu: veneno!... Aquilo tudo devia estar cheio de veneno!...
            Cecília instalou-se na outra cabeceira. Servindo-se com abundância, tratou de esclarecer:
- O tempero pode não estar muito bom. É que o cheiro-verde acabou e eu simplesmente esqueci de lhe pedir dinheiro para comprar mais – e parando para fitar o marido de forma incisiva – O que está esperando? Por que não enche seu parto, meu bem?!
Antunes encarou-a por alguns instantes.
            Veneno... Aquilo tudo devia estar empestado de formicida!...
Absolutamente trêmulo, pôs em seu prato um pouco de arroz, outro tanto de feijão e um naco de costeleta. Concluiu: como estava tudo envenenado, Cecília esperaria que ele comesse primeiro
            Mas Cecília, levando a boca uma surpreendente colherada de todos os itens que se achavam à mesa – menos de pudim, era claro –, Cecília explicou tudo:
- Você deve estar assim por causa do cansaço. 
            Cansaço?! Antunes fitou-a, em pânico. Ela estava se referindo ao cansaço do sexo! Ela vira, no motel, o quanto suara! Preparou-se para começar a ouvir as escu
lhambações.
            Só que Cecília completou:
- Esse emprego tem matado você! É preciso que converse com seu chefe!...
            Antunes provou da comida. Estava uma delícia! Logo em seguida, arremessou um olhar arguto ao voluptuoso pudim de leite. Bingo! O veneno estava na sobremesa!
            Como quem lê pensamentos e se diverte com isso, Cecília, de repente, serviu-se do pudim e degustou-o com lascívia.
- Ai, querido, o doce está sublime.
            A mente de Antunes fundiu. O que, diabos, estava acontecendo?! Fora flagrado pela esposa numa situação vexatória – transando, feito um celerado, com uma colega de trabalho –, mas a única coisa que parecia estar preocupando Cecília era aquele maldito jantar!...
            E o tal do jantar transcorreu no limiar da ânsia, para Antunes, e de todo banal, para Cecília.
            Pratos lavados. Cozinha arrumada. Antunes no quarto. Roupa trocada de modo tresloucado. Seria antes de dormir. O bate-boca seria antes de dormir.
            Antunes jogou-se na cama e, consciente de sua covardia, fingiu dar-se a Morfeu. Olhos trincados, percebeu quando Cecília entrou no aposento. Movimentos para lá, movimentos para cá. Um suave abre e fecha de gavetas.
            Antunes teve um estalo: Cecília devia ter trazido uma faca da cozinha e estava se preparando para...
            Abriu os olhos, ensandecido. Deparou-se com Cecília, em pé, a sua frente. Gritou e jogou o corpo para trás.
            A outra, por sua vez, sorriu.
- Oh, meu bem, assustei você!... – curvando-se sobre o marido, beijou-lhe os lábios – Queria apenas lhe dizer boa noite!
            Assim sendo, Cecília desligou as luzes do quarto, tomou seu lugar na cama e dormiu.
            Antunes encolheu-se sobre os lençóis. Que raios de situação mais ridícula era aquela?
            Sentiu um tranco no coração. Por Deus...!
            Sentou-se.
            Não podia dormir. Era isso! Cecília tentaria matá-lo durante o sono. Ah, não. Não mesmo. Sua esposa não o pegaria!
E Antunes passou a noite inteira acordado, de vigília. No final, descobriu apenas uma coisa: Cecília sabia como ninguém ressonar até raiar o sol.
            Dois, três dias se passaram. Uma semana. Nada de brigas. Nada de se tomar satisfações. E Antunes à espera, aguardando o momento em que Cecília explodiria. Aguardando o início de alguma vingança. Tudo, à sua volta, era suspeito: o copo d’água, a pasta de dentes, a roupa cuidadosamente engomada. Além de não mais dormir, logo adquiriu um novo hábito: não andava pelos cômodos da casa sem vasculhar o mais insuspeito dos cantos. Atrás das portas, embaixo dos móveis, por entre as revistas... Todo lugar podia ser o esconderijo de alguma arma. Arma?... Sim, a idéia o fascinou. Tinha de comprar uma arma para si. Precisava se defender de Cecília. A constante doçura de Cecília. Aquela amabilidade, tanto carinho... Ela estava lhe preparando alguma cilada. Precisava se defender de Cecília!
Comprou um revólver.
            À noite, acariciava a arma, enquanto fitava Cecília. Ele, insone. Ela, adormecida.  despreocupadamente adormecida. Languidamente descansada.
            Tratou de dispensar a amante. Não queria correr mais riscos do que já estava correndo.
            E Cecília sempre: “Querido, você deseja isso? Amorzinho, você quer aquilo?” Antunes a odiava por tamanha tortura.
            À noite, acariciava o revólver...
            “Meu bem, não se estresse no escritório!... Meu filho, tenha um bom dia, viu?...” Cecília estava maquinando alguma coisa. Podia haver cicuta no café. Podia haver chumbinho naquele bolo. Podia haver cianureto naquela lasanha.
            À noite, acariciava o revólver...
            Já não conseguia mais trabalhar direito. Quando lhe chagavam correspondências na repartição, ficava alucinado: cartas-bomba! E se fossem cartas-bomba?! Quando andava pelas ruas, seu olhar – estreitado, tenso – catava na multidão o assassino contratado para matá-lo. Levava horas para atravessar uma rua. E se, na direção daquele táxi, estivesse Cecília?!
            E ela eternamente cordata, amável... ridícula!
            À noite, acariciava o revólver...
            A noite. O escuro. O medo. O remorso.
            Uma noite, na sala, Antunes acariciou o revólver. Sorriu. Levou o cano até a têmpora direita. E puxou o gatilho.
            Velório. Um mar de gente perplexa. Por que Antunes fizera aquilo? Fora sempre um homem tão controlado, tão normal!
            A viúva, em pé, ao lado do caixão, parecia distante. Devia estar muito chocada, era o que todos comentavam.
            Marina – aquela amiga de infância, aquela do início – Marina aproximou-se de Cecília e lhe afagou o ombro.
- Que tragédia... Que horror...
            E Cecília calada.
- Em pensar que você o tinha perdoado por aquela traição.
            Cecília encarou a amiga. Sua voz ecoou fria:
- Quem disse que eu o tinha perdoado?
- Ora, você não fez nada. Não se vingou.
            Cecília pintou um riso doce nos lábios.
- Eu não me vinguei? 
Aquela delicada indagação fez Marina estremecer.
- Você imaginava que ele seria capaz de se...?
            E Cecília, num tom ameno, não usou mais do que quatro palavras para explicar tudo:
- Vinganças podem ser surpreendentes.

4 comentários:

  1. Carlos você é um artista literário na alta acepção da palavra e ponto final. Que conto magnífico,tanto na construção do corpo do texto,pois ele está absolutamente muito bem escrito,numa só palavra ele está irretocável,como na construção da história contada nele, no próprio texto. O conto nos prende a atenção de forma magnética da primeira a ultima linha, provando com isso a boa qualidade do material literário em questão. A história de Antunes e Cecília nos mostra que a alma feminina é deveras arguta, inteligente e sutil ao vingar-se do mal feito pela alma masculina á ela. O final dessa história narrada por sua pena autoral Carlos foi surpreendente. Parabéns, você tem o meu mais efusivo aplauso e a minha mais efervescente admiração. Abraços literários.

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