segunda-feira, 30 de maio de 2011

TIA MARÍLIA É COMPLETAMENTE SURDA

Deixando a porta aberta atrás de si, Wilma entrou em casa qual um furacão. Estava pálida, descabelada e desfeita em suor! O belo tailleur que vestia – escolhido com tanto esmero –  desgrenhara-se por completo!...
- Tia!... – Foi seu berro!
Nenhuma resposta.
Torceu a boca. Era mesmo muito estúpida por pensar que dona Marília a escutaria.
Correu para a sala de estar. Lá chegando, livrou-se da bolsa e da pasta de couro que carregava e agachou-se. Onde, raios, largara as chaves do carro? Esgueirando-se pelo enorme e felpudo tapete que recobria o piso do recinto, procurou embaixo dos sofás e da mesinha de centro.
Levantou-se com espalhafato.
Droga! Não podia ter perdido a porcaria daquelas chaves! Já havia procurado por toda parte e nada! Não estavam em seu quarto nem na cozinha... nem na garagem... A sala de estar era a última esperança.
Olhou o relógio em seu pulso: sete e quarenta e cinco. Só lhe restavam quinze minutos. Não podia acreditar que fosse perder a hora da prova. Três meses estudando qual uma infeliz para aquele concurso...
                        Vinda da cozinha, dona Marília surgiu no aposento. Nas mãos cheias de tremor, uma xícara com chá fumegante. Andar moroso, dirigiu-se à poltrona que ficava em frente à TV...
E Wilma, transtornada:
- Titia, a senhora não sabe das chaves do meu carro?... 
                        A anciã não deu retorno. Acomodou-se vagarosamente em seu assento, depositou a xícara num banquinho ao lado, pegou o controle remoto e ligou o aparelho de TV num volume inacreditável de tão alto.
- Tia, diminua esse volume!... – era Wilma, esbaforida!...
Onde estavam aquelas malditas chaves?!...
                        Desarvorada, a jovem mordeu os lábios e correu a vista por seu entorno.                       O volume da TV permanecia o mesmo...
- Diminua esse volume, tia! – tornou a gritar, enquanto conduzia-se a uma estante próxima à janela.
                        Revirou os porta-retratos e bibelôs que enfeitavam as prateleiras... Nada!...
                        Tornou a verificar a hora: dez para as oito!
                        Uma infame apresentadora de programas infantis balia baboseiras na televisão.
- Baixa o som desta desgraça, tia!... – esbravejou Wilma, já histérica!
                        Barulho de crianças gritando num auditório. As chaves perdidas. A hora passando. Uma sala de pernas para o ar. Uma prova a ser feita. Uma moça desesperada. Uma velhinha absorta. Crianças num auditório...
                        Wilma explodiu.
                        Furiosa, apoderou-se do controle remoto e desligou o televisor.
- Cacete, a senhora e sua miserável surdez!
                        A velha dama sorriu.
- Minha filha, você está ai!
                        Wilma foi irônica:
- Não, tia, eu não estou aqui... Isso é apenas um delírio seu.
                        A outra continuava sorrindo.
- O que disse?
- Deixa pra lá!...
- O que?
                        Wilma afastou-se, esquadrinhando o chão qual uma desequilibrada. Ainda tinha fé... Acharia as chaves... Acharia!...
- O que está procurando, minha filha?...
                        A jovem permaneceu calada: responder seria obviamente inútil!
                        Dona Marília levantou-se com certa dificuldade. Aos sessenta e quatro anos, era uma dessas criaturinhas idosas muito magras e bem baixas. O rosto, embora enrugado de norte a sul, denunciava a bela mulher que fora. Os cabelos, cuidadosamente tingidos, jamais se apresentavam mal penteados. Arrastando as pueris chinelas que calçava, tirou do bolso da bata algo tilintante e ladeou a sobrinha.
- Olhe o que encontrei em cima da mesa da cozinha... Você não devia guardar isto num lugar mais seguro? Acabará perdendo!...
                        Ao ver nas mãos trêmulas de sua tia as chaves que caçara feito uma louca, Wilma sentiu vontade de cometer suicídio. O tempo todo dona Marília estivera com o chaveiro e só agora lhe dizia!...
           Puxou o ar pelas narinas, tentando se conter. Pegou para si o objeto de sua agonia e examinou o relógio: oito horas em ponto. Havia perdido a prova!...
                        Em face do ar simpático e cheio de boas intenções da tia, Wilma entendeu, com mágica precisão, o sentido do vocábulo "furor".
                        Deu-lhe as costas e praguejou, entre dentes:
- Velha surda!...
- O que disse, querida?
- Nada!...
                        Já que só lhe restava agora tirar aquela roupa suada e tomar um banho, Wilma partiu rumo a seu quarto, no andar superior... "Velha surda!", repetia para si mesma, no que subia as escadas... “Velha surda!...”

                        *                                     *                                   *

- Eu só aturo esta velha por causa da grana!
- Wilma! – a constrangida exclamação de Antônio - Ela pode ouvir!
- Qual o quê!... Ela é surda que nem um vaso!
                        Wilma e seu noivo estavam sentados no chão da sala de estar, bem próximos da poltrona em que cochilava dona Marília.
                        Era noite de sábado e o apaixonado casal reunira-se, como de hábito, para traçar planos sobre o futuro.
- Já não agüento mais - prosseguia Wilma – É um horror servir de babá para essa mulher...
- Por que, então, não jogamos tudo para o ar? Interna essa coitada num asilo!
- Você sabe que não podemos!... Esquece-se da grana?... Esquece-se que ela já fez um testamento?!...
- Sim, mas cogitemos a possibilidade dela não ter indicado você como sua única herdeira... Todo o esforço que você empreendeu, ao longo destes anos, vai por água abaixo...
- Disso não tenho medo!... Sou o único parente vivo que ela tem... E, além do mais, a infeliz me adora tanto que chega a enjoar... O problema – Wilma franziu o cenho e lançou um olhar mórbido sobre a dorminhoca anciã – é que ela não morre nunca...
- Fala baixo, mulher!
                        A outra se impacientou:
- Eu já disse que essa velha é surda! Mais surda que pedra que convive com britadeira! E você sabe disso!... Ahrr, que ódio! Foi por culpa da surdez dessa cretina que eu perdi a prova do concurso, semana passada! Agora... agora nem aquela chance de emprego eu tenho mais!... Droga!... – arremessou outro olhar maligno sobre dona Marília – Para que o nosso casamento saia de vez...  só nos resta apelar para a herança...
- Credo, você fala como se eu não pudesse sustentar nosso futuro...
                        Wilma gargalhou.
- E você acha que pode?... Pelo amor de Deus, Antônio! Eu sou bastante cara, sabe?... Com o seu emprego de farmacêutico a gente não chega nem na esquina...
                        O rapaz reclinou a cabeça, desolado.
- Também, não precisa ofender...
- Oh, meu amorzinho... – Wilma beijou-lhe o rosto com sincera ternura – Penso apenas no melhor para nós dois. E o melhor para nós dois é a herança desta velha surda.
- Mas até que ela morra, não poderemos contar com este... auxílio.
- Eis o ponto! – a jovem sorriu cinicamente – A morte da velha surda não tem que demorar tanto para acontecer...
                        Antônio empinou o corpo. Os lábios ressecaram-se, vítimas de uma ânsia reprovável.
Deu uma de ingênuo:
- O que está querendo dizer?
- Você sabe muito bem!...
- Por acaso, está insinuando que podemos...
- Nós podemos, meu querido, dar uma forcinha ao destino. Quero dizer: morrer daqui a um certo tempo será mesmo o destino desta velha. Assim sendo, por que não poupá-la de uma arrastada doença? Por que não libertá-la de imediato do peso da idade? Ela já não vem demonstrando sinais de precoce exaustão. Pois bem!... Faríamos por ela uma espécie de... eutanásia! Sinceramente, discordo de quem considera a eutanásia um crime!... – riu, sardônica.
                        Antônio animou-se vilmente.
                        Foi cínico:
- Wilma, não convém falarmos disso aqui!... Essa mulher pode acordar e ouvir!...
- É isso que me emociona!... Não é excitante?... Tramar a mort... Digo, tratar do repouso prolongado de alguém bem na cara desta pessoa... – suas carnes fremiram de prazer – O que me diz?...
- Eu não sei!... Como faríamos?!
- Ora, Antônio!... Você, como bom farmacêutico, deve conhecer alguma discreta química que, posta numa sopa, em um chá... enfim, algo que silencie um coraçãozinho idoso sutilmente, sem deixar vestígios...!
                        As retinas de Antônio faiscaram.
- Será complicado... mas não impossível!... E quando faríamos o... "serviço"?
- Depois de amanhã... É o tempo que você terá para arranjar o produto.
- Agora, tem um problema: não sei se terei coragem de administrar o... o...
- Silenciador, chamaremos assim... – Wilma achou graça qual uma demente – Tudo bem, providencia o silenciador e deixa o resto comigo...
- Você é louca!
                        Wilma fitou-o profundamente...
- Louca por você!
                        Então, impelidos pelo frenesi, os dois se abraçaram de modo denso e nervoso... Frenesi... Beijaram-se com selvageria... Puro frenesi...
                        De repente, a televisão foi ligada!
                        Desvencilharam-se num susto!
                        Dona Marília, parecendo não ter notado a presença de ambos, começou a brincar com o controle remoto, mudando ininterruptamente os canais, à procura de algo para assistir!...                      
                        A voz de Antônio saiu trêmula:
- Desde quando esta mulher está acordada?!...
                        Wilma fez muxoxo
- Pouco importa.
- Criatura, e se ela tiver escutado?
- Ela é surda, Antônio... Surda!... Quer ver? – levantou-se e se pôs a bradar bem junto a outra – Tia! ... Tia!!!...
                        Somente no quinto e estridente "Tia!", dona Marília reagiu:
- Minha filha, você está ai!... E com Antônio!... Como vai, meu rapaz?!...
                        Antônio colocou-se de pé, hesitante.
- Vou bem!... E a senhora?
- O que?
- Como tem estado a senhora? – esbravejou, retendo uma maliciosa vontade de gargalhar!
                        Dona Marília riu com meiguice.
- Ótima, obrigada!
- Volte a ver sua TV, tia! - gritou Wilma - Vou levar meu noivo até a porta. Ele já vai!
- O que?...
                        Wilma usou toda a força de seus pulmões:
- ANTÔNIO JÁ VAI !!! – canto de boca : – Velha surda!...
- Ah, sim!... Até logo, meu jovem!
- Até breve, dona Marília!
                        Wilma acompanhou o noivo rumo à porta. No caminho, reiterou:
- Não se esqueça: depois de amanhã, einh! Providencie o mais rápido possível o nosso silenciador!...
- Deixa comigo!... Tchau!... Eu te amo!
- Também te amo!
                        *                                     *                                   *
                        Enquanto a água fervia, Wilma recapitulava as instruções que Antônio lhe dera.
                        "É tudo muito simples: adicione esse pozinho branco em qualquer líquido, quente ou frio, que a velha tenha o hábito de ingerir... Sei, lá!... Convide-a para tomar um chazinho com você!... O efeito surtirá rápido... Quando tudo tiver acabado, telefone para mim que virei correndo... Então, esperaremos o tempo certo e levaremos o corpo para o hospital... O diagnóstico será um terrível e fulminante ataque cardíaco!"
                        Wilma riu.
                        O bico da chaleira começou a apitar. Apagou o fogo. Encheu de água borbulhante as duas xícaras que repousavam numa bandejinha de prata, à sua frente, sobre o mármore da pia. Em ambas fez imergir sachês de camomila desidratada. Apenas em uma, porém, despejou todo o conteúdo do saquinho que recebera de Antônio. Guardou o saco vazio num dos bolsos da calça. Destruiria tal indício depois. Empunhou a bandeja e se preparou para se dirigir à sala. Entretanto, antes que tivesse esse trabalho, dona Marília entrou na cozinha, embalada por seus passos vagarosos e curtos.
                        Sentando-se à mesa que havia no recinto, a idosa bocejou.
- Ah... Bom dia, minha filha...
                        Wilma acomodou a bandeja na mesa - a xícara com a infusão letal na direção da velha - e sentou-se em frente à pobre tia.
            Fitou-a com infame desdém.
- Bom dia, querida!... – Usou de uma absurda dissimulação – Olhe, já fiz o seu chazinho. Beba-o. Vou até acompanhá-la, hoje.
- O que?
- Velha surda!... – murmurou primeiro para, depois, berrar: – Fiz chá para a senhora e para mim!... Beberemos juntas!
                        D. Marília era toda solicitude.
- Ah, que bom. Você só se esqueceu de por no pires uma colherinha para eu mexer o açúcar. Você já colocou açúcar, não colocou?
                        Açúcar, zombou Wilma intimamente, essa era boa. Morte doce! Claro que não gastara açúcar com aquilo.
                        Levantando-se, afoita, para buscar uma colher no escorredor de pratos, mentiu através de urros:
- Já coloquei açúcar, sim!
                  Colherinha pega, voltou à mesa e entregou o utensílio a dona Marília. Seria mesmo ótimo que ela desse uma mexidinha no chá. Talvez assim o veneno se incorporasse melhor ao líquido.
                        Acompanhou, em êxtase, sua vítima agitar a infusão fumegante, tomar a xícara para si e levá-la à boca.
                        Antes de dar o primeiro gole, no entanto, dona Marília soprou a fumaça que subia por seu enrugado rosto.
- Está quente - riu.
                        Em seguida, para o total deleite de Wilma, o chá nocivo foi ingerido em abundância. Tragadas fartas. Só houve uma pausa para que a desafortunada perguntasse:
- E você, minha filha?... Não vai beber o seu? Já deve ter esfriado bastante!
                        Triunfante, Wilma enroscou o dedo na asa de sua xícara e conduziu aos lábios o preparo de camomila que reservara para si. Aquilo seria como a champanha de sua vitória! Sorveu seu chá até quase o fim. Senhora absoluta da situação, reacomodou a vasilha no pires e suspirou.  Agora, tinha somente de esperar que sua tia caísse babando sobre a mesa!
                        Sentiu as mãos se umedecerem. Estava ansiosa! O sangue explodiu nas veias. O coração começou a palpitar.
                        Dona Marília saboreava devagar, sem pressa, o resto de sua última bebida
                        A tensão fez os pés de Wilma começaram a ficar dormentes. Precisava acalmar-se. Tudo daria certo! Seus braços pareceram mais pesados. O coração pulsava qual um alucinado. Uma dor fina castigou-lhe as têmporas. Assistia a todos os movimentos da tia com expectativa!
                        Dona Marília abandonou a xícara e fitou a sobrinha de modo estranho, cáustico. Ergueu o queixo e crispou o semblante.
                        “Era o veneno a fazer efeito!”, pensou a jovem assassina. O desfecho aproximava-se! A garganta de Wilma ardeu. De tão ansiosa que se encontrava, o ar dava a impressão de estar lhe faltando!...
                        O ar...?!
                        Por Deus!... Não era mera impressão! Estava sentindo mesmo falta de ar!...
                        Com extrema dificuldade, levou as mãos ao pescoço.
                        Sua respiração!... Estava perdendo a respiração!
                        O que diabos era aquilo?!...
                        Apavorada, entreolhou a tia.
                        Então, dona Marília falou num tom manso:
- Eu troquei as xícaras, enquanto você pegava a colherinha!... Bastou girar a bandeja!...
                        Wilma tentou sair da cadeira. Inútil!... Havia perdido todos os reflexos da cintura para baixo!... Quis gritar, pedir socorro, mas percebeu que sua glote começava a fechar!... Encarava sua rival com os olhos esbugalhados!...
                        Dona Marília levantou-se com agilidade e calma surpreendentes. Caminhou até a sobrinha e, ladeando-a, inclinou-se para sussurrar-lhe ao ouvido:
- Nunca confie em velhinhas surdas, minha cara – riu de modo cruel – Ah, sim... antes que eu me esqueça – Um delicioso berro: – Velha surda é a senhora sua mãe!!!...
                        E Wilma caiu morta sobre a mesa!...
                        Passados alguns minutos, receoso, Antônio entrou na cozinha...
Foi logo perguntando:
- Tudo certo?!...
                        Dona Marília entreolhou-o intensamente... Demorou a responder:
- Tudo, querido!... Conseguimos ludibriá-la! Ela sempre foi uma idiota mesmo!
                        Assim, os cúmplices sorriram. Com a sofreguidão própria dos amantes clandestinos, abraçaram-se e terminaram por trocar um saboroso beijo na boca!...
                        Estavam felizes. Cada um a seu modo, era bem verdade! A ladina e paciente Marília, por ter se vingado da sobrinha, que durante anos, a humilhara. O perigoso Antônio...  por ter, enfim, se livrado da única pessoa com quem corria o risco de dividir a herança que, caso tudo desse certo, não tardaria a receber!...
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2 comentários:

  1. Magnífico, escrito com o talento dos grandes mestres da literatura. A troca da xícara foi algo que pressenti que poderia ocorrer, mas o conluio entre Antônio e Marília é algo que nunca poderia imaginar. Então a velhinha era mais astuta e esperta que sua maldosa sobrinha. Quer saber?Achei bem feito para a vilã da jovem sobrinha. Aliás, desse trio no final das contas não sobra ninguém que preste mesmo. Meu amigo, é a segunda vez que leio um conto seu e fico maravilhado. Seu conhecimento sobre a psicologia humana em situações diversas é rico e preciso. Através de sua literatura você consegue nos mostrar as diversas nuances e perfis da alma humana. Foi a sim no conto “Minha doce Cecília” e agora nesse, “Tia Marília é completamente surda”. Congratulações pelo seu talento. Abraços literários.

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